terça-feira, 24 de novembro de 2009

Alvíssima


A fotografia de Hugo Macedo revela a belíssima Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Jardim do Seridó/RN.
Ai ai... já namorei muito nesse patamar...



Tinha terminado de lavar a escadaria quando o cachorro de Honório passou de supetão e escorregou bonito naquele ladrilho de lume fosco. Escorregou, mas foi num repente que se ergueu e voltou a correr desarvorado, cachorro mais besta, só pensa em brincar. Eu tenho minhas obrigações, não sou de dar corda a bicho, em casa eu não quero nem que me pague.

Era ainda pequena quando minha mãe juntava a lenha pra preparar o fogo, eu pegava os gravetos sem delicadezas, me enchia de frepas e sangue, não só pra mostrar à minha mãe a serventia de uma menina feia, mas também querendo um motivo pra usar aquela pinça que minha cunhada esqueceu lá em casa. Usava a pinça pra extrair as frepas, só que eu tinha um gosto estranho por arrancar os pêlos de minhas sobrancelhas. Não era um molde que eu as queria dar. O meu desejo era mesmo desatiná-las de seu desenho natural e fazer-me ainda mais estúpida dentro de uma família de estúpidos.

Com muito gosto eu enfrentava as filas do posto de saúde pra marcar uma consulta pra minha mãe. Ela já corcunda e velha, e eu ali, solteira, esquisita, mas servindo que era uma beleza àquela que me pôs no mundo com dois tantos de gritos e um xingamento logo em seguida, quando eu, pequenininha, mordi o bico do seu peito. Hoje eu morderia até sua alma, aquela mulher sempre arrumou uma forma de falar mal de mim, eu nem acordava tarde, lavava os panos íntimos de todas, limpava as escarradeiras de meu pai, penteava seus cabelos, mas sempre a imperfeição, menina mais inútil, eu pari um bicho, o que eu fiz pra merecer isso?

Acompanhei minha mãe na consulta, a fila cada vez maior, eu sentada naquele banco de madeira. O médico olhou pra ela e disse sinto muito. Não tive vontade de chorar. Agora era eu que podia servir mais, dando banho em seu corpo vegetal em cima daquela cama fedida. Eu cortava seus cabelos, tão feios e velhos. Patinava em seus lamentos, imaginando que a morte vem certeira, pega a pessoa de jeito e me daria um alívio dos grandes quando chegasse e envergasse de vez aquele corpo mal nutrido e desajeitado que eu, todos os dias, entupia com mais comida mal feita e cigarros de marca ruim.

Tive a certeza de que a queria longe da vida quando Honório apareceu pra tirar sua pressão. Todo de branco, parecia a morte. Até pensei em me benzer, mas então ele sorriu. Coisa mais doida é o amor. Eu nem tinha tomado banho ainda, ela tinha me acordado aos gritos, sua besta, e o comprimido? Estava mais feia do que nunca, os cabelos desalinhados, os dentes por escovar, a barriga ainda fria do contato eterno com o tanque e suas roupas reveladoras de maldições e esperas.

Me disse quase que morre. Pressão alta é um perigo. Ela bota pedra de sal na sopa, a culpa é dela. E eu calada, não podia nem sorrir, os tártaros me consumiam, eu sempre achei que o excesso de tristeza na cara me daria motivos para a solidão. Servir aos outros dói nas costas e no coração. A servidão deveria me pôr num pedestal, mas sempre fui de lama, coisinha minguada e sem conteúdo, apta aos descaminhos, ao desprezo, ao insucesso. Será porque servi às pessoas erradas? Ser feia, ter murchos ovários, catar o imundo dos outros, e me lançar mais impura ao mundo, era minha forma de grito, de espasmo. Por isso não queria o amor de ninguém. Desejar amor é entregar-se a mais um sofrimento. Não estava disposta à busca, também não admitia esperas, sempre a cara sem pintura, os dedos sem enfeite, e o humor afetado pelo cotidiano e pela sorte que acreditava ter na vida.

Mas Deus quando quer, manda sem aviso, e Honório veio, tão de branco, tão limpo, que não me viu os desastres, apenas a espera que reluzia em meus olhos de verdes águas, antigas dores, uma espera que nem eu conhecia. Tão desajeitada, nem lhe ofereci um pingado. Ele que pediu um copo de água e sorriu seus dentes brancos só pra mim. Disse amanhã venho de novo tirar a pressão. E eu fiquei assim, com esse jeito mole de quem não consegue esconder a alegria da promessa.

O dia passou desafogado de lágrimas. Minha mãe gritava o remédio, a louça suja, o corpo doído, tantas inutilidades, a culpa minha de cada dia. Eu só pensava em Honório, o leite chega derramou e entupiu duas bocas do fogão encardido. Soube pelas vizinhas que era solteiro e honesto, cuidava da avó doente, um primor de rapaz. Dei pra cuidar de mamãe até com carinho, fiz um caldo insosso e colorido, penteei seus cabelos enquanto cantava alecrim, essa mula parece que desarnou, minha mãe dizia, mas querendo sorrir. A agitação nas pernas não me deixou dormir. Umas fervuras nos quadris, tomei dois banhos bem frios, mas o calor aquecia minha camisola de mais de dez anos.

Nem ouvi cantar o galo de Cicinha, irritante todas as madrugadas. Já acordei colhendo manjericão, queria dar um gosto novo pra minha vida. Honório chegou às sete, disse desculpa a hora, é que ainda tenho mais três domicílios pra visitar, antes do médico começar a atender. Domicílio, a palavra saiu bem alvinha de sua boca e eu corei. Muito bonita a palavra “domicílio”, quando Honório diz devagar, examinando minha mãe e olhando bem pra mim. Pus aquele vestido que comadre Celina costurou ano passado, no tempo da festa. Minha mãe olhou e essa papagaia, vai cantar em que enterro, sua doida? Honório corou e me pediu um copo de água. No caminho pra cozinha, aquele homem de branco vinha atrás de mim tão sereno, eu falava umas besteiras, o calor, o preço do tomate, todas aquelas histórias de quem quer dar à boca uma outra serventia. Colhi a água no filtro e quando lhe ofereci, Honório disse a moça tem compromisso? Eu desviei a vista, mas a vontade era de dizer que já era sua e pronto, era só me levar embora que eu cuidava da avó dele. Então ele tomou a água junto com meu silêncio. E se foi.

Minha mãe ficou mal o dia todo. Parece que enfim a morte chegara. Mandei chamar Honório, mas ninguém o encontrou. O médico tinha viajado. Minha mãe tinha sangue escorrendo por todos os buracos. Chamei Zulmira que reza, ela estava sem arruda. Rezou mesmo com manjericão. Eu ali diante dos santos, não sentia nada. Não pedia coisa alguma. Só queria mesmo é que ela morresse de morte lenta e dura, uma planta derrotada pelas formigas. Os ventos da tardezinha não vieram, o mormaço se elasteceu por três dias. Compressas de água morna, infusões, leitura de salmos, minha mãe escorria vermelha dentro da bacia de alumínio. E Honório que não vem? Eu só pensava na sua ausência, na minha ausência pra ele, eu não era nada. Aquela que morre fez questão de apagar o lume de qualquer esperança por mim. Não havia por que lutar. Sem salvação.

Ao fim do terceiro dia, veio a desgraça. Minha mãe sobreviveu. A notícia que chegava é que Honório havia sido encontrado na escadaria da igreja, morto a facadas por Belarmino. As vizinhas disseram aflitas eu nunca imaginei isso de Honório, um jovem tão sério, se envolver assim com Gracinha. O marido descobriu o caso e botou meu amor do avesso, com uma faca de matar boi. Não sei como, meu rosto ficou vermelho do sangue de Honório. Enfiei minha cara com enfeite de lágrimas preciosas no seu peito estraçalhado e chorei a sua morte. Não acreditava no que as más línguas diziam daquele homem. Ele era puro, branco como sua farda, reto como seu sorriso. Não deixarei que maculem a única pureza que já tocou em meus dedos.

Numa hora como essa, me vem um pensamento como Deus é injusto. Tira-me o salvador e me deixa com aquele estorvo, desgraça e injúria, ruindade que merece meu ódio. Não sei o que pensar no meu luto de senhora ainda virgem. A escarradeira de minha mãe está tão cheia. Pois deixe que se esparrame o íntimo dessa infeliz, que a única coisa que quero é lavar a alma de Honório, com sabão dos caros e alvejante, cinco litros de. Escadaria limpa, o cachorro dele passa de supetão e escorrega feito um doido. Tão bonito aquele bicho, que mais parece um desenho dele. Não sabia que ele gostava de cachorro, soubesse já tinha um. Hora da janta. Vou ver se a avó de Honório quer sopa ou bolacha com chá pra dormir.

Iara Maria Carvalho



Com esse conto, recebi uma menção honrosa no Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio, edição 2009, promovido pela Secretaria de Cultura do Paraná. Concorrendo com mais de 2.000 contos, Alvíssima ficou entre os 15 contos classificados, sob o julgamento, dentre outros, de Marina Colasanti.



quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Umedeça


Robert Bresson



Meu vestido novo, gritou Bea ao longo dos pés de castanhola, João não mentiu seu legado de chão e tornou a mexer com a terra, a enrugar-lhe as células serenas, a desativar suas forças febris, painando docemente seus minérios e luxúrias, enquanto, vez ou outra, trincava na cintura de Bea o traço de suas unhas encardidas, deixando-lhe as marcas do solo, arquitetando, nas malhas de suas curvas, um terreiro limpo e macio, pronto pra plantações e formigas, sementes e águas. Eram assim desde a meninice, quando nem mesmo sabiam da natureza extravagante que os unia em torno dos punhos de rede fabricados por suas mães. Uma corda aqui e a menina no canto de lá ritmava os olhos em conluio com o movimento das mãos ágeis de Dona Petronila. Uma corda acolá e o menino no canto daqui orquestrava os dedos na direção das hortaliças, enquanto Dona Rosa espalhava rendas nas varandas de suas redes. O alpendre embalava menino e menina, olhos e dedos macios e etéreos dançando nos balanços da infância. Até que o tempo adolescente empunhou entre eles um compromisso silencioso, movido a despeitos, beijos roubados, arengas de noitinha chegando, colo nu entre rosas, aromas de camomila, portas fechadas, silêncio úmido e surpresas. João, no seu degredo de menino andante, revestia com alumínio e sal as palavras de sua boca. Seja besta não, menina, ficava encarando Bea, ela toda vermelha, um sol caindo de lindo. Ela ficava danada da vida com os risos de João, o seu jeito de continente ainda desconhecido, um tardio modo de aquietar seus delírios com ruindades matreiras de pecador assumidamente guloso. Menina criada em segredos, Bea se mortificava vez toda em que maltratavam um passarinho ou uma cabra. E João sabia judiar dela, sabia como. Com desculpa de rosas, matava envenenadas as formigas namoradeiras que a menina criava perto do cajueiro mais antigo do sítio, que ela, carinhosamente, chamava de Alípio. Tinha essa vontade de dar nome às coisas, aos seres, às tristuras mais insignificantes do seu dia. E, apesar de João ficar mangando quase que sempre das invencionices de Bea, e de matar suas formigas, e de derrubar as casas de barro, e de trincar as unhas na sua cintura, e de sujar seu vestido novo, e de mexer nas hortaliças como quem não quer perceber que a rede lhes cabia nus lá dentro, e de lhe tirar o vestido com força, e de olhá-la com certo desdém manhã cedinho cheiro de mastruz pela casa, apesar dos pousados beijos tardecendo encantos alaranjados nas fachadas do Casarão, Bea e João se curtiam horas a fio entre as laranjas da terra, os cajus rancorosos, os poemas dos loucos, as aves em voo. E desde aquelas tardes esquisitas em que suas mães empunhavam ternuras nas varandas e sustentos de suas redes, o sol se punha contra a corrente, e virava o horizonte pelo avesso, como se a noite chegasse sempre cor vermelha de barro, vermelha de amor, vermelha de beijos.


 
Iara Maria Carvalho