quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Umedeça


Robert Bresson



Meu vestido novo, gritou Bea ao longo dos pés de castanhola, João não mentiu seu legado de chão e tornou a mexer com a terra, a enrugar-lhe as células serenas, a desativar suas forças febris, painando docemente seus minérios e luxúrias, enquanto, vez ou outra, trincava na cintura de Bea o traço de suas unhas encardidas, deixando-lhe as marcas do solo, arquitetando, nas malhas de suas curvas, um terreiro limpo e macio, pronto pra plantações e formigas, sementes e águas. Eram assim desde a meninice, quando nem mesmo sabiam da natureza extravagante que os unia em torno dos punhos de rede fabricados por suas mães. Uma corda aqui e a menina no canto de lá ritmava os olhos em conluio com o movimento das mãos ágeis de Dona Petronila. Uma corda acolá e o menino no canto daqui orquestrava os dedos na direção das hortaliças, enquanto Dona Rosa espalhava rendas nas varandas de suas redes. O alpendre embalava menino e menina, olhos e dedos macios e etéreos dançando nos balanços da infância. Até que o tempo adolescente empunhou entre eles um compromisso silencioso, movido a despeitos, beijos roubados, arengas de noitinha chegando, colo nu entre rosas, aromas de camomila, portas fechadas, silêncio úmido e surpresas. João, no seu degredo de menino andante, revestia com alumínio e sal as palavras de sua boca. Seja besta não, menina, ficava encarando Bea, ela toda vermelha, um sol caindo de lindo. Ela ficava danada da vida com os risos de João, o seu jeito de continente ainda desconhecido, um tardio modo de aquietar seus delírios com ruindades matreiras de pecador assumidamente guloso. Menina criada em segredos, Bea se mortificava vez toda em que maltratavam um passarinho ou uma cabra. E João sabia judiar dela, sabia como. Com desculpa de rosas, matava envenenadas as formigas namoradeiras que a menina criava perto do cajueiro mais antigo do sítio, que ela, carinhosamente, chamava de Alípio. Tinha essa vontade de dar nome às coisas, aos seres, às tristuras mais insignificantes do seu dia. E, apesar de João ficar mangando quase que sempre das invencionices de Bea, e de matar suas formigas, e de derrubar as casas de barro, e de trincar as unhas na sua cintura, e de sujar seu vestido novo, e de mexer nas hortaliças como quem não quer perceber que a rede lhes cabia nus lá dentro, e de lhe tirar o vestido com força, e de olhá-la com certo desdém manhã cedinho cheiro de mastruz pela casa, apesar dos pousados beijos tardecendo encantos alaranjados nas fachadas do Casarão, Bea e João se curtiam horas a fio entre as laranjas da terra, os cajus rancorosos, os poemas dos loucos, as aves em voo. E desde aquelas tardes esquisitas em que suas mães empunhavam ternuras nas varandas e sustentos de suas redes, o sol se punha contra a corrente, e virava o horizonte pelo avesso, como se a noite chegasse sempre cor vermelha de barro, vermelha de amor, vermelha de beijos.


 
Iara Maria Carvalho

9 comentários:

Moacy Cirne disse...

Que o seu novo blogue seja um sucesso. E a foto de 'A grande testemunhas', o belo filme de Bresson, não deixa de ser um signo que ilumina o seu texto.

Beijos.

Cefas Carvalho disse...

Iara, belo texto e parabéns pelo novo blog. Que vai entrar para minha lista de favoritos. Abraço!

Eduardo Lara Resende disse...

Brilha também o texto que inaugura blog de sucesso - estou certo. Viva!
Abraço, abraço.

Pedra do Sertão disse...

Cá estou de novo...muito bom o blog...o texto. adoro os nomes curtos - como Bea...

Sucesso...

Oliver Pickwick disse...

O seu segredo é a paisagem brejeira da sua janela. Seja na prosa, seja nos versos, seus textos exalam graciosa brejeirice.
Vida longa ao Prosa da Janela.
Um beijo!

Sônia Brandão disse...

Parabéns por mais essa Janela que se abre.
Que continuem a sair por ela suas maravilhas.

bjs

Úrsula Avner disse...

Oi Iara, é bom iniciarmos novos trabalhos não é ? Desse modo vamos diversificando nossas atividades e fazendo novos amigos. Sucesso sempre ! Um beijo com carinho.

Ianê Mello disse...

Olá Iara, fico feliz que tenha inaugurado um novo espaço.

Uma nova Janela para a alma sobre a qual poderemos nos debruçar em deliciosas visões.

Inaugurando com "chave de ouro" num belíssimo texto.

Sucesso!

Beijos.

Cláudia Magalhães disse...

Parabéns pelo novo espaço, Iara! Sucesso em seu novo blog! Bom te ler em versos... Bom te ler em prosa! Lindo texto!

Beijos
Claudia

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